MULHER POVO MULHER DOR



Todos os dias acordava a lua,
Lavava o rosto e ajeitava o seio
Na boca quente do filho infante,
Fervia o leite, cortava o pão,
Jogava o milho ao galo capão,
Mudava a palha, tirava o leite,
Fiava a lã, cortava cueirinhos,
Lançava sementes e espiava ninhos.
Arrancava ervas e ripava couves,
Tocava o jumento no caminho longo
Apregoava ovos, ramos de hortelã,
Contava as moedas ao findar da manhã,
Ajoujava a saia de fruta madura,
Rezava o rosário escolhendo o feijão,
Rachava a lenha e o lume acendia,
Amassava o pão quando pão havia,
Deitava o corpo do dia cansado
Ainda o sol ia lá pelo telhado,
Fechava os olhos e abria o corpo
Ao corpo do homem a quem se entregara,
Dormia por fim sonhando romãs
E uma outra vida toda de amanhãs!
Viu ir o seu homem p'ra terras distantes
E a aldeia aos poucos sem risos infantes,
O filho a morrer em guerra sem sentido
E o mundo a desabar no seu corpo dorido.
Mas todos os dias acordava a lua,
Lavava o rosto e ajeitava ao seio
O retrato amado do mártir infante,
Fervia o leite, cortava o pão,
Jogava o milho ao galo capão,
Mudava a palha, tirava o leite,
Fiava a lã, cortava cueirinhos,
Lançava sementes e espiava ninhos.
Arrancava ervas e ripava couves,
Tocava o jumento no caminho longo,
Apregoava ovos, ramos de hortelã,
Contava as moedas ao findar da manhã.
Ajoujava a saia de fruta madura,
Rezava o rosário escolhendo o feijão,
Rachava a lenha e o lume acendia,
Amassava o pão quando pão havia,
Deitava o corpo do dia cansado
Ainda o sol ia lá pelo telhado,
Fechava os olhos e deitava o corpo
Na cama do homem a quem se entregara,
Dormia por fim sonhando romãs
E uma outra vida toda de amanhãs!
Os olhos sem viço, o corpo cansado,
Lavando no rio todo o despovoado,
Carregando água, restolho de vida
Que dela se aparta sem uma despedida.
A casa hoje dorme serena à lua
E conta a história dessa vida crua,
Os campos sem alma,
A aldeia vazia,
Um país que morre
Ao nascer de um dia.

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