
Durante muitos anos anulei dentro de mim as vontades, os sonhos e os desejos de ser eu.
Durante muitos anos deixei de ser eu para ser o que queriam que eu fosse,
Imagem feita à medida dos sonhos e desejos de quem se queria feito deus,
Prepotente e intransigente, sempre a alimentar-se com os meus membros e corpo e alma
Esse deus menor que como Saturno se alimenta dos seus filhos
Pelo medo de se ver em si tal como é,
Recusando a verdade da sua própria mortalidade,
Negando-me o direito à vida, à alegria de existir e de voar.
Agora matei-te dentro de mim.
Arranquei-te do meu peito, cravando em mim mesma a espada de dois gumes,
Retalhando da minha carne o teu nome e a tua imagem.
Não sei se é ódio o que sinto por ti ou se é pena.
Não sei se é lamento ou uma alegria contida o que me resta.
Mas sei por certo que desta morte farei a festa
De estar viva ainda para seguir viagem,
Agora nos caminhos que irei escolher, com a força que me anima,
Só ou acompanhada, nesta jornada,
Serei eu, inteira, mulher nascida de mim mesma
E por mim e só por mim sonhada!