DE SOFRIMENTO EM SOFRIMENTO IN COM FORMADA


Quando a minha infância era violentada
Em violência (des)medida pela loucura
De uma maternidade indesejada,
O teu silêncio em tudo te denunciava pela brandura.

Assim cresci entre espinhos e venenos
Ignorado o sofrimento in-conformado
À vista dos que não queriam ver nos meus olhos o medo.

Julgaram-me então rebelde, surdos aos gritos que lançava
A cada chicotada que me davam
Em vez de abraços e beijos que sempre me negaram.

O teu silêncio, em tudo te denunciava pela brandura,
Imperioso era que a aparência fosse conforme e conveniente
E de sofrimento em sofrimento in com formada para ser submissa,
Porque a sociedade não perdoa aos que não se conformam nem se rendem.

Quando a minha juventude me era negada
Em violência (des)medida pela ditadura
De uma paternidade indesejada,
O teu silêncio em tudo te denunciava pela intransigência pura.

Assim me vi entre espinhos e venenos
Carregando mais que as forças, suportava,
Ignorado o sofrimento in-conformado
À vista dos que não queriam ver nos meus olhos
A revolta que crescia em segredo.

Julgaram-me então rebelde, surdos aos gritos que lançava
A cada direito que me negavam
E em cada humilhação, na fome que sentia no pão que me negavam.

O teu silêncio em tudo te denunciava pela intransigência dura,
No prato de sopa comido entre lágrimas e raiva,
Na enxerga estendida no chão que ninguém via,
Estendia o meu corpo de mulher que desabrochava
Enquanto me roubavas os sonhos enquanto dormia.

E assim amadureci entre espinhos e venenos,
Entre gritos e violência cresceram-me os seios
E a raiva nos dentes que eu escondia in-conformada
Na aparência de uma conformidade em que não creio.

E o teu silêncio em tudo te denunciava pela intransigência casmurra
Não de pai, mas de tirana ditadura onde sempre te espelhaste
Para seres conforme à sociedade que te serve conforme o teu anseio.

E os anos passaram por mim, como por ti passaram,
De sofrimento em sofrimento in com formada continuo
Porque o teu silêncio já tudo denunciou
Em tudo o que me negaste e em tudo o que a vida me negou,
A família que não tive, os filhos e os sonhos que a vida me levaram,
As violências que o meu corpo suportou e as marcas que deixaram,
As muitas lágrimas que derramei nos gritos que lancei
Aos olhos que viam e não queriam ver porque denunciar era inconforme
À sociedade que te serve e é sempre surda aos que sofrem
Enquanto liberta e desculpa os que tiranizam com candura.

Olho o meu caminho e in-conformada me assumo,
Insubmissa, marcada pelo sofrimento de uma vida
Que sempre me foi negada desde a nascença.
Mas ainda que as forças me faltem na jornada
A vontade de justiça é o que me nutre e acalenta
O tempo, ah o tempo, é fiel e é nele que me apoio,
O tempo dirá que de sofrimento em sofrimento,
De lágrima em lágrima, tudo isso será pesado
Na balança final, quando partires e fores pó ao vento.

Ergo a cabeça e olho o sol, in-conformada
Formando-me numa mulher diferente a cada dia
Daquela mulher que o teu silêncio intransigente e duro não queria!